O mercado financeiro tem muitas ciladas para te fisgar

Dúvidas sobre investimentos costumam ser frequentes entre os leitores da minha coluna. De um modo geral, as pessoas têm curiosidade para entender melhor sobre a diversidade de produtos financeiros disponíveis no mercado, especialmente os de renda fixa. No entanto, apesar da variedade de produtos, a publicidade nem sempre leva o investidor a optar pelos melhores ativos. Isso porque os produtos com forte potencial de capitalização para as instituições financeiras raramente são aqueles que oferecem melhor rentabilidade a quem investe.

 

Em outras palavras, as instituições pintam de ouro aquilo que fará com que seus cofres fiquem mais cheios, mas que nem sempre farão grande diferença para a sua carteira de investimentos. A Financial Conduct Authority (FCA), instituição que regula o mercado de capitais do Reino Unido, publicou um relatório neste ano que diz respeito aos vieses de comportamento que são usados na publicidade de produtos financeiros. As instituições financeiras são experts em combinar uma série de gatilhos comportamentais que induzem as nossas decisões de investimento.

 

Ainda que não possamos ficar completamente imunes a essas estratégias, entendê-las mais a fundo pode nos ajudar a tomar decisões financeiras mais conscientes. Um dos pontos abordados é a questão da linguagem. Assim como em qualquer outro contexto, as pessoas tendem a confiar com mais facilidade em informações que são facilmente entendidas, ou seja, quanto mais simples a linguagem, melhor.

 

Vale ponderar um costume frequente em peças publicitárias de produtos financeiros, a linguagem é bem objetiva, o produto costuma ser apresentado como uma solução prática e rápida. A linguagem é construída no sentido de induzir a pessoa a tomar aquela decisão o quanto antes. Essa simplificação de informações sempre vem com uma armadilha: detalhes em letras minúsculas sobre taxas, riscos e funcionamento do ativo em questão nunca ficam expostos de uma maneira clara.

 

Quando o investidor procura se inteirar melhor do que se trata o produto, acontece justamente o oposto: passa-se a empregar uma linguagem difícil e termos técnicos que não fazem parte do cidadão comum. Isso pode levá-lo a uma fadiga mental e o excesso de esforço tende a fazê-lo ceder pelo cansaço. O resultado: o investidor toma uma decisão impulsiva por não entender com total clareza a enxurrada de informações passadas.

 

Outro recurso muito comum é o uso de uma linguagem que apele para que o já falamos por aqui neste blog sobre “Aversão a Perdas”. São as famosas chamadas que começam com frases como “Não perca mais dinheiro”, “Não perca essa oportunidade”, “Condições por tempo limitado” e assim por diante. Os recursos são usados no intuito de levar a pessoa a crer que ela vai perder uma oportunidade se não tomar a decisão com urgência.

 

A Heurística do Afeto é outro recurso explorado com muita frequência. Isso diz respeito a um viés que temos de tomar decisões por motivação emocionais. É um recurso muito comum usado em propagandas de planos de previdência, por exemplo. Em geral, a linguagem visual é inspiracional e o discurso é sempre voltado para uma questão de responsabilidade com o cuidado com a família e com o futuro. Instigar esse senso de responsabilidade, ao mesmo tempo em que se exige um cenário paradisíaco para qualquer pessoa que pensa em “sonhos para o futuro”, faz com que a Heurística do Afeto seja de fundamental importância na decisão dos investidores.

 

Nada mais justo do que reforçar o hábito dos meus leitores de sempre fazer questionamentos, seja qual for o produto de interesse. Quanto mais perguntas e maior o volume de pesquisa, menores as chances de escolher um produto financeiro ruim.

 

Fonte: G1